terça-feira, maio 30, 2006

A vergonha

"Eu já sabia, meu Deus, tão fulgurante visão não se produz duas vezes no mesmo lugar..."

ó moço não tenha vergonha
tem gente pior que você
que não tem talento de arte,
mas um grande disfarce
que ninguém vê

quinta-feira, maio 25, 2006

... Meio e ...

pela manhã tinha um jovem, mancebo de uns 24 anos pregando no Largo da Carioca:

- pra'onde nós vamos quando morremos?

eu não disse nada, mas pensei comigo mesmo:

"talvez pro mesmo lugar de antes de nascermos..."

domingo, maio 21, 2006

Beatriz

Edu Lobo - Chico Buarque
1982

Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz
Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Olha
Será que é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Sim, me leva para sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Ai, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz

Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se um arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida
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porque a beleza é intraduzível...

sexta-feira, maio 19, 2006

Tempo livre

há muito que não se há vento que mova ao menos essa carapuça intacta que se deteve contra mim, a impelir-me ao mais tácito e inativo imovimento. Na brandura, no rasgo, no ar que se respira, na atmosfera que se está a viver. Não. Não pode ser. É que olhando agora, mais de perto, como quem se mescla ao contínuo do tempo é que vejo que se-me perdi nalgum instante e agora, não tem mais volta: tem recomeço, do zero, como cravar-se ao mapa da linha reta uma nova partida, uma nova era. Se me é permitido agora, vou chorar. Porque me perdi? Talvez. Mas é que vejo tanto e tudo e todos se acertando e a mim do começo tão distante. De entender do que se trata. E sigo andando, sem rumo, sem tez, sem coordenadas...é certo dizer que sei pronde estou indo, poque de perdido só tenho o dia de ontem, que não mais está. Dou a volta no horizonte pra tentar me achar. Não, não pode ser. Como pude deixar que o tempo me desconsertasse quando deveria expô-lo a construção mais verossímil de mim mesmo, e agora, vejo-me como renascido de trás pra frente, na medida que se passa, virar do velho sábio, ao bebê extremo. Mais um ano e a impressão será a mesma: de que tudo passou e que não fiz absolutamente nada, nada do que quis. Será essa a verdadeira definição do tempo livre, isto que tenho, aos meus dedos, inomeado, inaudito...bravo de quem sabe o que quer, que eu, cidadão ignoto, "ignútil", reles tempero de um prato maior se delicia a esperar de si mesmo a grande virada, que talvez jamais acontecerá.

sábado, maio 13, 2006

Cotidiano

Este dia que está. O meu cabelo que não é mais o mesmo. A minha unha que precisa cortar. O substantivo masculino porvir que parece verbo. A minha dor de pescoço que não pára. A tensão que se descarrega no couro cabeludo, nos ombros...a apresentação do coral ontem. O coquetel que comi feito doido. A minha espontaneidade. O show do bombo. O bumbo do show. A saudade que sinto dos meus amigos. Vontade de fazer mil coisas ao mesmo tempo. A ausência do sentido. Do verbo. A viagem pro Peru. O trabalho que mata. O remédio que se toma. O congestionamento. A fila do supermercado. As horas no banco. O dólar que sobe, as exportações que descem. Os pagamentos. Os usufrutos. O meu amor na cama. Dorme feito anjo, sem saber de nada. Beijo-lho a testa: dorme, meu bem, que às vezes o mundo não vale a pena...

quarta-feira, maio 10, 2006

Abraçados


Vivi. Com aquelas mãos azafamadas sobre meus cabelos, na ânsia louca de tê-los apertados contra si mesmas, confesso que vivi; o momento da sua boca encostando a minha pela vez primeira, como pomba branca que beija o céu no azul do bater das asas, contra o crepúsculo...sei que vivi. Porque embora simples e sem nenhum ato concretizado, estávamos um do outro tão próximos que nossas mãos tesas se continham retidas uma na outra, e, sem saber, nos amávamos assim mesmo, muito mais que outros amantes do desejo; pois éramos simples entre beijos e abraços, dóceis de ternuras e enseios: dois sem-jeito, sem-graça. Talvez sem pretensões, amantes sem sexo, como se nossos instintos fossem tão cândidos entre si que guardassem o leve senso da harmonia, que se tornassem pertencidos mesmo sem burlar fronteiras físicas. Impressiona ter ficado em mim essa sensação de vida cotidiana a dois, mesmo sendo cedo demais pra pensar assim ou até mesmo mentira, que cada vez mais me convenço de estar vivendo; não importa: vivi. Antes de mais nada, mesmo residindo em mim imberbe sensação de estar vivendo um devaneio feérico movido pelas mãos-algures de um belo imprevisto, que haja enfim paz naquilo que sinto e que descanse por eterno a vaga sensação de se dormir sozinho.

quinta-feira, maio 04, 2006

Poema Sincero




Eu vou chorar frente à você.
Pra que você sinta culpa e remorso,
que se roa por dentro
feito um bicho sarnento.
E vou rir de fora,
enquanto engulo lágrimas verdadeiras.
Mas choro, meu caro,
por mais que lhe esconda a razão,
pra deixar bem claro meu momento;
porque se bem me lembro
eu posso falar de rancores
mas só guardo por ti amores
no coração.

segunda-feira, maio 01, 2006

Acordo Quebrado

Après la vie, comme la femme, Via o filme, apenas-eu, na primeira poltrona, como os todos-solitários; em crise de abstinência pela falta de abraço. Comme la femme, não queria sentir dor; mas, ao invés da morfina, procurei em mim algo que pudesse desprender. Existia um certo acordo de dependência; não apenas entre ela e a droga, entre ele e ela, ou entre o traficante e o policial; nesta cadeia de dependências eu me vi: vício. Por querer cheia minha cadeira ao lado, por querer mão pra apertar, voz pra ouvir ou olhos pra ver. E, a disparatada idéia de sair correndo prum lugar longe, em busca de outro corpo, me pareceu tão simples, alcançável...quase fui. Não fosse minha razão dizer que nunca precisei daquilo tudo. Comme la femme. Nunca precisou daquilo tudo. Era algo dispensável. Toda aquela cadeia de dependências que se entrelaçava e dançava tal como dançam os dnas nas suas espirais helicoidais, revelando em si um ser novo, já descrito, moldado: as duas horas em que a trama se engendrou nunca passou de um vício único. Et comme la femme, por um momento vi-me perceptível; destrui as seringas e os vidros cheios: nunca tive vícios de amor!